Sexta-feira, 15 de Setembro de 2006
Tsukuba, Cidade-Ciência
Nestes últimos dias tenho andado a tentar ganhar uma noção de espaço e tempo nesta cidade. Para além de percorrer as ruas a pé, tenho experimentado vários supermercados, restaurantes e outras lojas de comércio. Posso dizer-vos que não é fácil comprar uma coisa tão trivial como pó para a máquina de roupa. Há uma série de produtos diferentes, todos eles com rótulos em japonês – até agora tenho escolhido um pouco ao calhas! Há poucos dias fui abrir a minha conta de banco e fazer o meu registo de residente estrangeiro. Para ambos foi necessário um chaperone – os funcionários na sua generalidade não falam inglês! E para cúmulo era também preciso escrever o meu nome em japonês (foi aliás um episódio caricato escrever o meu nome completo em katakana – os nipónicos nem acreditam quando lhes digo que tenho cinco nomes!)
O meu lugar de trabalho, como já aqui referi, é o Instituto Nacional de Ciências dos Materiais (NIMS). Para além de ser um lugar com uma boa quota de estrangeiros, tem fortes ligações a várias multinacionais japonesas (Hitachi, Mitsubishi, etc). A investigação aqui feita é do mais alto nível sendo um dos centros de referência mundiais para a ciência dos materiais (eu diria mesmo que é o melhor centro não-universitário do mundo – mas eu sou suspeito, trabalho cá!). Posso-vos garantir no entanto que o dinheiro abunda, qualquer coisa muito para além da escala das Universidades de Oxford e Cambridge, duas das mais reputadas do mundo. Aqui, quando se pensa numa experiência não é preciso andar a fazer esforços para reduzir os custos ao máximo. Pode-se sonhar!
Tsukuba é uma cidade estranha talvez consequência de ser uma mega-estrutura pensada e desenvolvida para a ciência (http://www.info-tsukuba.org/english/index.shtml). Embora isto seja positivo ao nível do trabalho, o ambiente humano fica um tanto ou quanto estranho. A Tsukuba falta-lhe ainda um centro, qualquer coisa que marque como um bairro histórico...o centro, de momento, é caracterizado por um centro comercial, pela estacão de comboios e terminal de autocarros e por um parque público / biblioteca municipal. Falta-lhe os meios culturais (muito pouca escolha para cinema, teatros, ...) o que é contraditório para uma cidade dita de elevado calibre de QI. Tsukuba parece, na verdade, uma versão sofisticada de Milton Keynes, em Inglaterra (quem conhece sabe do que falo!). Há quem goste do tipo – eu, não acho nada de especial. Mas talvez seja assim mesmo as cidades novas precisam de tempo para maturar, para construírem uma identidade própria, de perceberem a sua especificidade urbana. Felizmente Tóquio fica apenas a 45 min.
Tsukuba está localizada no planalto Tsukuba Inaski o qual é o resultado da acumulação das cinzas expelidas ao longo de milénios pelos vulcões Fuji e Asama. Por esta razão, Tsukuba foi por muito tempo uma região exclusivamente dedicada à agricultura, aliás ainda hoje de forte presença. A cidade de Tsukuba é, com efeito, derivada da fusão de 5 aldeias/vilas (Tsukuba, Tai, Hojo, Tamiyama e Oda). No princípio da década de 60, Tsukuba foi escolhida pelo governo japonês para ser a nova cidade da Ciência (http://en.wikipedia.org/wiki/Tsukuba). A construção de uma série de institutos governamentais prosseguiu durante os anos 60 e 70. A população internacional era de 7200 residentes estrangeiros de 128 países diferentes em 2004. Grande parte deste número são investigadores. Não está mal para uma população total de menos de 200 000 pessoas.
A ideia por detrás de Tsukuba Cidade-Ciência foi tentar levar para fora de Tóquio os institutos de investigação nacionais e assim libertar os investigadores não só do custo de vida exorbitante da capital mas também do stress e burocracias que a invadem – por outras palavras tentar fazer a vida o mais fácil possível para os cientistas. A cidade tem pois, desde a sua fundação, levado a cabo a sua concretização como centro de excelência para a ciência e educação. As organizações de investigação cobrem uma área total de quase 1500 hectares. Entre elas está, por exemplo, a sede dos laboratórios da JAXA (o equivalente nipónico da NASA). De facto, a JAXA fica mesmo em frente do meu laboratório! De vez em quando vou lá almoçar.


publicado por pmfjcosta às 12:52
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