Sábado, 14 de Outubro de 2006
Um chapéu de três bicos
Pelos vistos falta pouco para termos a confirmação oficial do teste nuclear da Coreia do Norte. Para mais, agora que o secretário-geral da ONU é do país vizinho, vamos lá a ver se eles acalmam. É que mesmo não tendo (possivelmente) a capacidade para lançar um ataque nuclear não me sinto nada bem se um dia aqueles tarados começarem a ameaçar o Japão (à falta de território americano a distancia viável, o Japão é o alvo preferido de Pyongyang).
É engraçado ver como o tecido geopolítico e económico desta região mudou nos anos recentes. Há pouco mais que uma década atrás tínhamos o Japão e mais nada. Alicerçado pela amizade com os US, este país mantinha um poder intocável na região. Agora, com o crescente desenvolvimento da China, Coreia do Sul e mesmo Índia, os nipónicos encontram-se numa posição muito mais delicada. Dizem-me que há uns anos seria impensável encontrar a quantidade produtos chineses e sul-coreanos que hoje se vêem nas prateleiras dos supermercados - especialmente no que toca aos electrodomésticos. Os japoneses simplesmente não os compravam.
Agora as coisas mudaram - as prateleiras estão em grande parte cheias de produtos dos dois países vizinhos; os amigos americanos babam-se de cada vez que os políticos de Beijing dizem que vão abrir mais umas janelas do enormíssimo mercado chinês. Ora tudo isto deixa os nipónicos cada vez mais stressados com o futuro. Pois...o melhor é começarem a ver as coisas como elas são e interiorizar que vão ter de se adaptar ao facto que deixaram de ser os senhores absolutos da região. O novo triunvirato é China, Coreia do Sul e Japão.
Muito se fala da China - dinheiro a rodos que tem sido literalmente despejado naquele país por parte de investidores, multinacionais e outros. E na verdade, muito desse dinheiro tem sido reinvestido em Ciência e Tecnologia. Beijing tem realizado um investimento nesta área que provavelmente não tem paralelo em lugar nenhum no mundo neste momento. Hoje, o salário de um cientista na China está muito acima do rendimento médio de um qualquer cidadão comum daquele país. De tal forma que o meu chefe quando foi de visita à Universidade de Beijing voltou completamente siderado com a qualidade e quantidade de equipamento com que os chineses se armaram nos últimos anos. Diz ele que há uma verdadeira revolução silenciosa a ocorrer na China. Que daqui a 5 - 10 anos eles estarão no top-3 mundial de nações em termos de desenvolvimento científico e tecnológico. E isto passa-se num pais que é regido por uma ditadura comunista!
Ora, a meu ver, devido ao condicionamento social da população chinesa durante décadas a fio, eles estão ainda longe de serem capazes de concretizar o saber-fazer ciência ao melhor nível dos laboratórios ocidentais e japoneses. Mas eles têm mandado muita gente para fora, para os melhores laboratórios americanos, europeus, japoneses e muita da ciência mundial é presentemente feita graças ao suor de estudantes e pós-doutorandos chineses (aliás basta consultar os sites de grupos de investigação de Universidades americanas para ver que estes têm sempre a sua quota parte de chineses). Em Cambridge e Oxford, a mesma coisa. E aqui, no grupo do qual faço parte, somos a cerca de 90% constituídos por chineses. Aparte estes, temos um russo, dois japoneses, um indiano e um português (e o big boss, também ele japonês, é claro). Portanto, cuidem-se pois os chineses já não vão só trabalhar para os restaurantes ou para os supermercados do Centro Comercial Martim Moniz.


publicado por pmfjcosta às 07:58
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