Domingo, 10 de Setembro de 2006
A vida entre terramotos e rituais nipónicos
Como toda gente sabe, o Japão é pródigo em tremores de terra. Eu, com apenas uma semana, já fui baptizado! Estava no laboratório e, inesperadamente, começa a minha secretária a abanar. Durante uns segundos ainda pensei que fosse o chinês no cubículo da frente (as nossas secretárias são todas pegadas – uns cubículos individuais) a tentar apagar algum rabisco nos papéis dele. Mas quando para além da secretária, os armários começaram a estremecer dei-me finalmente conta do que se estava a passar...ora pois um tremor de terra. O chinês nem disse ui nem ai – só abriu a boca quando lhe perguntei se aquilo tinha realmente sido um terramoto (a minha experiência nestas coisas resume-se a um outro tremor que senti a meio da noite num hotel em Zurique, Suiça, 2005; eram cerca de 4 am, dormia desalmado, e nem me dei bem conta do que se tinha passado!). Mas aqui, isto é o pão nosso de cada dia. Todos os edifícios estão preparados – no meu flat deram-me lanternas e rádios de emergência; as mobílias e demais armários fecham-se automaticamente. Para além disso, na televisão, anunciam sempre a eventualidade de tufões e tsunamis e outras coisas do género. Felizmente não vivo perto da costa.
Hoje andei a fazer um bocado de turismo...andava à procura do centro de informação turística e, quando me dei conta, estava a participar numa demonstração da cerimónia do chá (chado). No centro, tinham uma demonstração aberta ao público, gratuita, de como todo o ritual de beber chá verde (matcha) se passa. Muito complicado, mas absolutamente fascinante (leiam o artigo na Wikipedia, http://en.wikipedia.org/wiki/Japanese_tea_ceremony). O detalhe dos movimentos, a forma como se posicionam as mãos, o chá em si (diferente de qualquer outro que já tinha provado – e já provei uns poucos!), tudo, absolutamente tudo a transpirar uma tradição cerimonial de séculos. E, ao que parece, esta espécie de pó (que se obtêm depois de macerar as folhas ressequidas da planta de chá verde) é um dos segredos da longevidade e boa saúde dos nipónicos. Enfim, fiquei agradavelmente surpreendido e foram autenticamente simpáticos...até me deram uns doces para acompanhar o chá (feitos à base de pasta de feijão preto; pequeno aparte: apreciar os doces japoneses é um gosto adquirido, aviso já...a primeira vez que experimentei tive um quase reflexo instintivo, primário, de vómito. Mas agora até gosto...mesma história se aplica para o wasabi, a mostarda japonesa de cor verde). No fim de contas, um bom e saudável contraste ao “very british, tea and scones at 5”.
Para além do chá tinham também exposta uma bonita selecção de arranjos florais (Ikebana). Quando pensamos em arranjos florais na Europa, pensamos em coroas ou ramos ou qualquer coisa, tipo pequenas cestas. Aqui, novamente, há todo um ritual envolvido, pleno de significado espiritual e cheio de códigos. As flores que se escolhem, onde se colocam, maneira de as cortar ou colocar, o vaso, a água, etc...tudo tem uma maneira específica de se fazer...muitos, mas mesmo muitos códigos, e mais anos de trabalho e estudo para se fazerem as coisas como devem ser...o resultado é um espectáculo visual digno de se apreciar.
 
Voilá, já chega por hoje...


publicado por pmfjcosta às 10:56
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1 comentário:
De Mária a 14 de Setembro de 2006 às 17:22
Ainda bem que ja te estas a ambientar aos novos costumes! Imagino que conviver diariamente com habitos tao diferentes nao seja muito facil de inicio... Mas tambem deve ser uma experiencia gratificante.
Adorei ler sobre as tuas primeiras impressoes, foi como se te estivesse a acompanhar! Ficarei atenta as tuas proximas experiencias!
Beijos.


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