Quarta-feira, 20 de Setembro de 2006
Despem-se as árvores, calam-se as cigarras
Aparentemente anda mais um furacão a fazer das suas aqui na costa oeste do Japão. Felizmente estou do outro lado, do lado do sol nascente. Mas pelos vistos isto toca a todos; nos Açores estão a preparar-se para a chegada do “Gordon”. Engraçado como uma força natural tão destrutiva acaba sendo baptizada com nome de gente. As estrelas e cometas ainda percebo, honra dada como fruto do esforço daqueles que primeiro os estudaram e depois, são fenómenos lindos de se observar. Mas os furacões...valho-nos Deus! Em todo o caso, se alguma vez oferecida, recusaria tal honra!
Hoje foi a recepção de boas-vindas para os três novos elementos do grupo (a minha pessoa incluída). Fizémo-lo depois do seminário semanal, com uma foto de grupo como manda a ocasião e regado a chá verdes, cerveja japonesa (Asahi e Kirin, para os interessados) e algum Cho-Hi (uma espécie de limonada alcoólica de origem coreana). Do lado dos comes, uma saudável mudança das sandes repletas de maionese, norma em Inglaterra. Portanto, mais umas quantas iguarias da cozinha japonesa ao qual fui apresentado: sushi de ovas de ouriço-do-mar (intenso cheiro e sabor a mar talvez fruto do elevado conteúdo de sais de iodo), fios de lula fumada (um bom petisco para acompanhar as cervejas, segundo os nipónicos), queijo coberto de camadas de peixe seco e finalmente, sushi com grãos de soja apodrecidos (dizem que é muito saudável mas cheira mal como tudo!). Claro que tínhamos ainda toda uma provisão de sushi recheados de peixe cru (polvo, atum, etc.), alguns com omoleta, outros opção vegetariana, outros ainda com uma tira de bacon frito e um pequeno espargo a acompanhar.
O Ajjul, o meu colega indiano, contou-me acerca do tempo em que ele trabalhava em Bangalore como estudante de doutoramento no grupo do C N R Rao. Para os que conhecem o nome fiquem sabendo que este senhor, mesmo com a idade avançada que tem (80+), ainda encontra energias para dirigir um instituto de investigação de referência mundial com cerca de 250 investigadores e estudantes ao seu encargo – louvável. Por acaso até é um sítio onde não me importava ir passar uns poucos meses.
De volta a casa, as árvores começaram a esfolheada conjunta. Com isto esquecemo-nos paulatinamente do ensurdecedor barulho das cigarras, antes gordas do tamanho de um polegar, ora mortas de fome ou cansadas de tanto gritar. Os grilos, até há pouco soterrados na pesada e sonora onda “cigarreira”, soltam-se, um caso de tempus fugit. Este concerto de Verão, tocado a várias mãos, ouve-se não só na pequena cidade de Tsukuba mas também na imensa Tóquio.
Ando por Tsukuba a tentar encontrar actividades de tempos livres. Temos umas duas ou três piscinas mas aqui, em geral, os hábitos e costumes são diferentes. Para além dos tradicionais desportos japoneses (sumo incluído) fiquei surpreendido por sabe-los fanáticos de basebol. É incrível a quantidade de miúdos que nos recreios, de taco, bola e luvas rodopiam em treinos de lances copiados da televisão. Certamente esta é uma das consequências da permanência dos americanos em território japonês por mais de 50 anos.
Mais do que isto, lá vou tentando como posso levar uma vida normal. Meio por graça no outro dia fui ao barbeiro. Como esperava, foi um delírio...ele não falava inglês, eu não falava japonês. Levou-nos cerca de dez minutos para nos entendermos quanto ao corte de cabelo. Mas, trabalho feito, foi muito simpático e até me ofereceu umas amostras de óleo para o couro cabeludo...enfim, talvez tenha sido porque mencionei os nomes de Figo e Cristiano Ronaldo! Cá em casa, continuo à redescoberta das tarefas mundanas...lavar roupa com uma máquina automatizada e computorizada da Sanyo, na qual todos os botões são em japonês (muito embora uma folha A4 escrita num inglês incompreensível), não chega para perceber o que se passa lá dentro; isto a juntar ao facto que comprei o detergente de olhos fechados (espero bem que seja detergente para a máquina) – em suma, acho que tenho aqui um desafio doméstico.


publicado por pmfjcosta às 00:12
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